segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Gregório de Matos - "Desenganos ..."

Foto de Marluce Dias
É a vaidade, Fábio, nesta vida,
Rosa, que da manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.
É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.
É nau enfim, que em breve ligeireza
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:
Mas ser planta, ser rosa, nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?
O título do poema acima é "Desenganos da vida humana metaforicamente". Foi escrito por Gregório de Matos, poeta que viveu no Brasil, na Bahia, no século XVII. O poema é um soneto, composição poética que apresenta dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos). Se estudarmos a literatura brasileira numa abordagem histórica, o autor Gregório de Matos deve ser associado ao primeiro período literário no Brasil, o Barroco. 
O tema do poema é a vaidade e há três metáforas no poema que se referem à vaidade. Metáfora é uma figura de linguagem em que duas ideias são ligadas entre si por uma relação conotativa, isto é, no sentido próprio não há relação entre as duas ideias, apenas no sentido figurado.
As três metáforas se aplicam à vaidade. A vaidade (A) é rosa (B). A vaidade (A) é planta (C). A vaidade (A) é nau - embarcação (D). O elemento A é ligado na primeira metáfora a B, na segunda a C e na terceira a D. E não há nenhuma relação no sentido próprio entre vaidade e rosa, vaidade e planta, vaidade e nau.
A metáfora se sustenta pela fugacidade desse sentimento, assim como são fugazes a rosa, a planta, a embarcação, pois a rosa murcha à tarde, a planta é logo cortada por um instrumento (ferro) e a embarcação pode facilmente vir a naufragar ao bater numa rocha (penha). Alguns autores comentam que a forma como são apresentadas as três metáforas, inicialmente rosa - planta - nau e depois nau - planta - rosa demonstra que a vaidade pode no início crescer, para depois diminuir e desaparecer. 
O tema da passagem do tempo e da fugacidade das coisas é comum no período barroco. Também é usual a figura de linguagem chamada antítese, além da metáfora.
Na antítese são apresentadas ideias contrárias. Assim, a ideia da rosa que rompe airosa pela manhã opõe-se à rosa que enfrenta a tarde (em que vai murchar), a planta favorecida por abril (primavera no hemisfério norte) opõe-se à planta cortada pelo ferro, a nau que se julga imortal (fênix, ave que renasce das cinzas) opõe-se à embarcação que naufraga na penha.
O poema inicia com a menção de uma pessoa, Fábio, num vocativo. Assim, o poema também se aplica a nós humanos. Portanto não devemos também ser vaidosos, porque tudo passa!


Um comentário:

  1. Interessante análise, professora! Vou indicá-la aos meus alunos. Mas, sempre tive curiosidade de saber que era "o tal Fábio": um amigo do poeta, um intelectual coetâneo? Normalmente suas menções a políticos são irônicas ou até sarcásticas. Abraços

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