segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Quincas Borba

Vamos lembrar o  romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, grande escritor do Realismo. Nesse romance, encontramos uma biografia escrita pelo narrador - Brás Cubas - após a morte, em que narra seus amores secretos com Virgília e algumas outras recordações da vida. Entre as personagens mencionadas nessas recordações está o Quincas Borba,  amigo de Brás desde a  época da escola.
Num outro romance, Quincas Borba será a a personagem título. Mas vamos aqui neste post recordar a personagem como aparece em Memórias Póstumas.
No capítulo XIII de Memórias Póstumas de Brás Cubas,  surge Quincas Borba junto com as recordações da escola:

"Uma flor, o Quincas Borba. Nunca em minha infância, nunca em toda 
a minha vida, achei um menino mais gracioso, inventivo e travesso. 
Era a flor, e não já da escola, senão de toda a cidade. A mãe, viúva, 
com alguma coisa de seu, adorava o filho e trazia-o amimado, 
asseado, enfeitado, com um vistoso pajem atrás, um pajem que nos 
deixava gazear a escola, ir caçar ninhos de pássaros, ou perseguir 
lagartixas nos morros do Livramento e da Conceição, ou 
simplesmente arruar, à toa, como dois peraltas sem emprego. E de 
imperador! Era um gosto ver o Quincas Borba fazer de imperador nas 
festas do Espírito Santo. De resto, nos nossos jogos pueris, ele 
escolhia sempre um papel de rei, ministro, general, uma supremacia, 
qualquer que fosse. Tinha garbo o traquinas, e gravidade, certa 
magnificência nas atitudes, nos meneios."

Quincas Borba está aí descrito como o menino, com um pajem a "cuidá-lo", pajem que permitia que faltasse à escola, menino que aprecia brincar de rei, ministro, general.
Mais tarde no mesmo livro, no capítulo XIX, aparece Quincas Borba como mendigo, sem ter o que vestir e comer e ainda ladrão, pois furta o relógio de Brás Cubas no capítulo XX. Porém a sorte sorri para a personagem, que mais tarde, depois de receber uma herança de um velho tio em Barbacena, devolve um relógio no lugar do que subtraíra em uma carta na qual menciona também a filosofia que criara - o Humanitismo.
Humanitas, para Quincas, é o princípio que faz com que o mesmo homem esteja presente em todos os homens.
Ao contemplar a briga entre dois cães, Quincas vê sua própria filosofia concretizada:

"Fez-me observar a beleza do espetáculo, relembrou o objeto da luta, concluiu que os cães tinham fome; mas a privação do alimento era nada para os efeitos gerais da 
filosofia. Nem deixou de recordar que em algumas partes do globo o 
espetáculo mais é grandioso: as criaturas humanas é que disputam 
aos cães os ossos e outros manjares menos apetecíveis; luta que se 
complica muito, porque entra em ação a inteligência do homem, com 
todo o acúmulo de sagacidade que lhe deram os séculos, etc."

Como dissera poucos minutos antes da briga de cães o Quincas Borba:
"Vida é luta. Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo 
universal." 

Quincas Borba é dado como louco por um médico que vem examinar Brás Cubas pouco tempo depois, o que nos faz recordar da fixação em reis e imperadores do menino da época de escola.

Alguns críticos veem na filosofia do Humanitismo uma crítica a teorias surgidas no século XIX, como o evolucionismo. O Humanitismo de Quincas
cita uma evolução, embora não muito clara:

"Humanitas, dizia ele, o princípio das coisas, não é outro senão o 
mesmo homem repartido por todos os homens. Conta três fases 
Humanitas: a estática, anterior a toda a criação; a expansiva, 
começo das coisas; a dispersiva, aparecimento do homem; e contará 
mais uma, a contrativa, absorção do homem e das coisas. A 
expansão, iniciando o universo, sugeriu a Humanitas o desejo de o 
gozar, e daí a dispersão, que não é mais do que a multiplicação 
personificada da substância original."

Outros críticos acreditam que Machado reuniu no Humanitismo alguns princípios em que acreditava.
O certo é que essa figura misteriosa que reúne o mendigo, o poeta e o louco é uma das mais inquietantes personagens criadas pelo grande autor realista.

  



segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Mestre

Amanhã transcorre o Dia do Professor.
Vou apresentar aqui uma frase do grande escritor João Guimarães Rosa, autor do livro Grande Sertão Veredas.

"Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende."
João Guimarães Rosa

Continuemos aprendendo, que a vida é uma eterna aprendizagem!

Lembrando, João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais, e morreu 1967, apenas três dias depois de tomar posse como membro da Academia Brasileira de Letras.
O livro "Grande Sertão Veredas" é escrito com uma grafia própria do escritor, diferente da ortografia oficial e mantida pela editora de seus livros.
É narrador no romance o sertanejo falando para um senhor da cidade que quer ouvir suas histórias. Conta sobre lutas, sobre mistérios, como o pacto com o diabo, sobre amor e morte, sobre a realidade.
É famosa a personagem Diadorim, uma mulher vestida como homem e que lutava como homem, pela qual se apaixona Riobaldo, o narrador, que no entanto não consuma seu amor por não saber que o objeto de seu amor era uma mulher, o que se revela apenas após sua morte.